O ano acaba… e deveria terminar em silêncio,
mas termina em excesso.
Passamos o último dia correndo.
Comendo além do necessário.
Bebendo para “celebrar”.
Rindo por obrigação.
Esticamos o corpo e a alma até o limite,
procuramos o melhor ângulo para a foto,
forçamos uma alegria que muitas vezes não existe,
transformando a virada em uma disputa silenciosa
sobre quem escolheu o melhor lugar para estar.
Chamamos isso de festa.
Mas, muitas vezes, é apenas fuga do vazio.
Uma anestesia coletiva.
Então chega o primeiro dia do ano.
E ele chega cobrando.
O corpo acorda pesado.
A mente, turva.
O coração, estranho —
como se algo importante tivesse sido esquecido
no meio do barulho.
Não é preguiça.
É exaustão espiritual.
Queríamos começar o ano com força,
mas começamos deitados.
Sem energia.
Sem direção.
Rolando o feed para ver quem fez a melhor foto.
Adiando decisões.
Empurrando propósitos para “segunda-feira”.
É o retrato de uma cultura
que confunde alegria com estímulo constante
e descanso com inércia.
Talvez o erro não esteja no primeiro dia…
mas em como terminamos o último.
Antigamente, o Ano Novo começava com vigília.
Com recolhimento.
Com oração.
Havia fogo, mas era controlado,
não explosão.
Havia respeito pelo tempo,
pelo corpo,
pelo espírito.
O início era tratado como algo sagrado,
não como ressaca.
E se este cansaço for um aviso?
Um chamado para começar diferente:
menos promessa, mais presença
menos euforia, mais sentido
menos excesso, mais ordem
O primeiro dia não precisa ser produtivo.
Mas precisa ser consciente.
Mesmo cansada, você pode:
— silenciar
— arrumar um pequeno espaço
— escrever uma intenção real
— agradecer por ter chegado até aqui
Recomeçar não exige energia.
Exige verdade.
E talvez o verdadeiro Ano Novo
não seja o dia 1º,
mas o dia em que você decide
não repetir o mesmo ciclo —
nem por hábito,
nem por medo,
nem por convenção.