martes, 30 de junio de 2026

Oração da Vergonha

Meu Pai,

a vergonha me consome.

Não venho pedir socorro. Venho apenas conformada, como um condenado que já aceitou o próprio destino.

Setenta vezes sete cometi o mesmo pecado.

Já não me julgo digna do teu perdão.

Meus olhos já não conseguem levantar-se aos céus.

Lamento a madrugada.

Choro.

Já não consigo dormir.

Procuro um lugar onde possa me esconder, mas não existe esconderijo para quem está diante de Ti.

Se subo aos céus, Tu lá estás. Se desço ao mais profundo abismo, também ali estás.

E é justamente isso que mais me fere: não consigo fugir do teu olhar, porque o teu amor me encontra até quando eu desejo desaparecer.

Permaneço em silêncio, com a alma coberta de vergonha, esperando apenas que a tua vontade se cumpra em mim.

Salmo da Alma Envergonhada


Ó Senhor,

já não encontro palavras para erguer a minha voz.

Minha alma desfalece de dor, e o meu coração se consome em remorso.

Fui fraca. Cedi ao mal. Deixei que o inimigo zombasse de minha fraqueza e bebi do cálice que me prometia prazer.

O veneno não matou o meu corpo, mas feriu a minha alma.

Há um punhal cravado em meu peito, e a consciência não me concede descanso.

Tenho vergonha de levantar os olhos para o céu.

Como Adão, procuro esconder-me entre as árvores. Como Eva, cubro-me de vergonha. Mas para onde fugirei de tua presença? Ainda que me esconda na noite, teus olhos me encontrarão.

Minha alma rasteja como um verme na terra, envolta na lama dos próprios pecados. O frio da culpa penetra meus ossos, e minhas lágrimas são o pão que me alimenta.

Já não me julgo digna de ser chamada tua filha.

Se tua justiça me condenar, bendito és Tu, pois és santo em todos os teus caminhos.

Mas, se ainda houver um só raio de tua misericórdia, olha para mim.

Não por causa de meus méritos, pois nada tenho para oferecer, mas por causa de teu infinito amor.

Se me lançares ao fogo, que nele seja consumido o meu pecado, e não o desejo de voltar para Ti.

Cria em mim um coração novo. Ainda que eu caminhe ferida, não permitas que eu me afaste de tua presença.

Pois sei que longe de Ti existe apenas a morte, mas em Ti, até a alma mais miserável pode voltar a viver.

Amém.

Escondida

Vou-me.

Não quero mais.

Meu coração está em luto.

Ah, se Deus não existisse,
talvez eu não precisasse me esconder,
assim como Adão e Eva um dia fizeram.

Cá estou:
escondida,
envergonhada,
fingindo.

Se ao menos eu não acreditasse n'Ele,
não haveria remorso,
nem peso,
nem alma.

jueves, 5 de febrero de 2026

Responda

Diga-me uma coisa:
você está feliz?

Você está feliz nesse mundo novo?
Está feliz depois que calçou os próprios pés
e já não pôde mais sentir a terra na pele?

Você está caindo.
Em muitos momentos, eu vejo o quanto você está perdida.
Você espera por uma mudança,
e nos seus dias ruins… você ri.

Diga-me uma coisa:
a garota que há em você
se esconde dentro da mulher que você se tornou?

Você tenta preencher o vazio que carrega,
mas sempre precisa demais.
E não é fácil sustentar esse equilíbrio
quando tudo em você oscila.

Você está caindo.
E, ainda assim, em todos os instantes
se sente incompleta.

Você espera por uma mudança externa,
mas você sabe —
a mudança mora dentro de você.

Você está assustada.
Então respire.

Rompa os medos.
Nada pode ferir
quem já esteve despedaçada
e ainda assim continuou de pé.

domingo, 25 de enero de 2026

...

Não espere por mim
Não chame meu nome
Eu não poderei ouvir
Quando minha mente estiver barulhenta
Você não deve falar

Eu te machuquei 
Você não pode entender

Você quis me abraçar
E eu não estava lá 
Se você puder me perdoar

Querido, você me diz que sou uma contradição 
Eu sinto sua respiração 
Você tenta segurar em minha mão 
Não é real

Em um instante não estou mais 


Peixinho

Domingo.
Domingos.
Domingueira.

D
Dom
Dim

Eu sempre fugi de mim.
Ouvir a voz que me fala —
abafa.

Tento gritar:
agora, cale-se.

Silenciar ainda é minha cura.

Onde eu estive todo esse tempo?
Os dias passaram rápidos.
Perdi alguns quilos na caminhada.

Olhos vermelhos.
Riso pálido.

O que eu quero?
O que eu espero?

Que vazio esse coração.
Só queria um amor.

Uma vida comum.
Mas nada.

Nada me satisfaz.
Então valha-se agora:
silêncio.

Misturo-me na multidão.
— O que você está fazendo aqui?!

E eu só queria ser
comum.

E não ter
esse peixinho
dentro de mim.

O que há em mim

O que há em mim que não me cabe?
Acordo cedo num dia qualquer.
Pela janela, a cidade cinza.
Eu finjo entender o tempo,
mas você não está aqui.
Luto com os demônios da mente,
não ganho nada, tropeço de novo.
Amigos, risos, cerveja.
Ruas vazias.
O dólar alto.
O sofá.
A pipoca.
A Netflix.
E é assim que ficamos
quando você não está aqui.