Eu não pertenço a grupo algum.
Em qualquer reunião de pessoas, há sempre um instante em que percebo: não é ali. Nunca foi. Talvez eu seja a sobra — não por falta, mas por excesso de sensibilidade. Não sei explicar com precisão, apenas sinto.
Esse não pertencer não nasce de uma decisão. Não é rebeldia, nem isolamento escolhido. Eu tento. Eu me esforço. Participo. Rio nos momentos esperados, invento piadas sem nexo, construo pequenas pontes para não parecer distante. Por algum tempo, funciona.
Até que a energia começa a minguar.
Não de forma abrupta, mas como uma luz que vai se apagando aos poucos. O corpo pede distância, a mente se cansa, e a alma se recolhe. O que antes era presença torna-se ruído. O convívio, um cansaço inexplicável. A sociabilidade, um esforço que já não se justifica.
Então me afasto. Não por desprezo, mas por necessidade. Preciso do silêncio como quem precisa de ar. Preciso estar só para voltar a ser inteira.
Por isso, torno-me o tipo de pessoa “com quem não se pode contar”. Não estou sempre disponível, não permaneço até o fim, não cultivo constâncias artificiais. A reciprocidade, frágil, se rompe. E eu me vejo só — não como vítima, mas como consequência.
Não ando em grupos. Não tenho com quem desabafar. E, se sou honesta, também não sinto prazer em expor o que penso. Palavras demais me cansam. Explicar-me me cansa ainda mais. Há coisas que só existem em silêncio.
Vivo só.
Não por misantropia, mas por fidelidade a mim. Conheço muitas pessoas, circulo, observo, atravesso. Ainda assim, vivo só. As relações raramente sustentam profundidade, e a fidelidade — essa que não se diz, mas se percebe — quase nunca permanece.
E está tudo bem.
Essa solidão não é um lamento. Nunca foi. Ela sempre esteve aqui, como um traço permanente do meu modo de existir. O não pertencer tem seus encalços, suas ausências, seus vazios. Mas também tem um rigor silencioso: não me diluo, não me traio, não me adapto até desaparecer.
Talvez eu não pertença a lugar algum.
Mas pertenço a mim.
E isso basta.
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