domingo, 25 de enero de 2026

O que há em mim

O que há em mim que não me cabe?
Acordo cedo num dia qualquer.
Pela janela, a cidade cinza.
Eu finjo entender o tempo,
mas você não está aqui.
Luto com os demônios da mente,
não ganho nada, tropeço de novo.
Amigos, risos, cerveja.
Ruas vazias.
O dólar alto.
O sofá.
A pipoca.
A Netflix.
E é assim que ficamos
quando você não está aqui.

viernes, 16 de enero de 2026

Deus é Bom + Mau o Tempo Todo

Na exposição, um painel afirmava: “Deus é bom e mau o tempo todo.”
Essa frase, embora provocativa do ponto de vista simbólico, carrega uma afirmação que, à luz da fé cristã e da razão teológica, não se sustenta.

Deus não é mau.
Deus é bom, justo e perfeito.

O bem e o mal não coexistem em Deus como forças opostas. Eles existem na experiência humana, não na essência divina. O mal não nasce de Deus, mas da liberdade humana mal orientada, da ruptura, do afastamento da ordem do bem. Deus não contém o mal; Deus permite a liberdade, e é nessa liberdade que o mal pode surgir.

Quando falamos em emoções “boas” e “ruins”, estamos falando de nossa condição humana, limitada, ferida, ambígua. Somos nós que julgamos, sentimos, erramos, projetamos. Muitas vezes, atribuímos a Deus aquilo que pertence à nossa própria sombra, à nossa incapacidade de compreender o sofrimento, a justiça e o tempo.

Deus é justo — e a justiça divina não é vingança, nem maldade.
É ordem.
É verdade.
É amor que respeita a liberdade, mesmo quando essa liberdade O rejeita.

O maior exemplo disso não é um conceito abstrato, mas um fato: Deus não crucificou o homem; foi o homem quem crucificou Deus. O mal supremo não partiu do céu, mas da terra. Não foi Deus sendo “mau”, mas o ser humano sendo incapaz de reconhecer o bem absoluto quando Ele se apresentou desarmado, humilde e amoroso.

Dizer que Deus é “bom e mau” é, ainda que simbolicamente, reduzir Deus à psicologia humana, submetê-Lo às nossas categorias emocionais. Deus não é ambivalente. Quem é ambivalente somos nós.

O mal não é uma imperfeição em Deus — é uma privação do bem no homem.
Deus permanece bom mesmo diante do mal.
Permanece justo mesmo quando é injustiçado.
Permanece perfeito mesmo quando é rejeitado.

Talvez a frase do painel quisesse falar da tensão humana entre luz e sombra. Mas essa tensão não está em Deus — está em nós. E projetá-la no divino não liberta; confunde.

Deus é bom.
Deus é justo.
Deus é perfeito.

O mal existe não porque esteja em Deus, mas porque o homem, livre, pode afastar-se do bem.

domingo, 11 de enero de 2026

Sobre o não pertencer

Eu não pertenço a grupo algum.
Em qualquer reunião de pessoas, há sempre um instante em que percebo: não é ali. Nunca foi. Talvez eu seja a sobra — não por falta, mas por excesso de sensibilidade. Não sei explicar com precisão, apenas sinto.

Esse não pertencer não nasce de uma decisão. Não é rebeldia, nem isolamento escolhido. Eu tento. Eu me esforço. Participo. Rio nos momentos esperados, invento piadas sem nexo, construo pequenas pontes para não parecer distante. Por algum tempo, funciona.

Até que a energia começa a minguar.
Não de forma abrupta, mas como uma luz que vai se apagando aos poucos. O corpo pede distância, a mente se cansa, e a alma se recolhe. O que antes era presença torna-se ruído. O convívio, um cansaço inexplicável. A sociabilidade, um esforço que já não se justifica.

Então me afasto. Não por desprezo, mas por necessidade. Preciso do silêncio como quem precisa de ar. Preciso estar só para voltar a ser inteira.

Por isso, torno-me o tipo de pessoa “com quem não se pode contar”. Não estou sempre disponível, não permaneço até o fim, não cultivo constâncias artificiais. A reciprocidade, frágil, se rompe. E eu me vejo só — não como vítima, mas como consequência.

Não ando em grupos. Não tenho com quem desabafar. E, se sou honesta, também não sinto prazer em expor o que penso. Palavras demais me cansam. Explicar-me me cansa ainda mais. Há coisas que só existem em silêncio.

Vivo só.

Não por misantropia, mas por fidelidade a mim. Conheço muitas pessoas, circulo, observo, atravesso. Ainda assim, vivo só. As relações raramente sustentam profundidade, e a fidelidade — essa que não se diz, mas se percebe — quase nunca permanece.

E está tudo bem.

Essa solidão não é um lamento. Nunca foi. Ela sempre esteve aqui, como um traço permanente do meu modo de existir. O não pertencer tem seus encalços, suas ausências, seus vazios. Mas também tem um rigor silencioso: não me diluo, não me traio, não me adapto até desaparecer.
Talvez eu não pertença a lugar algum.
Mas pertenço a mim.
E isso basta.

sábado, 10 de enero de 2026

Mulher virtuosa, dons e missão: além das paredes da casa

Mulher virtuosa, dons e missão: além das paredes da casa

Tenho visto muitos artigos em páginas católicas e evangélicas tratando o chamado “feminismo” apenas de forma negativa, como se toda valorização da mulher fora do lar fosse contrária à vontade de Deus.
Muitos desses textos acabam limitando a mulher às paredes da casa, como se o único papel legítimo fosse cuidar do lar e da família.
Mas a própria Bíblia apresenta um retrato muito mais amplo, rico e verdadeiro.
Sim, a mulher virtuosa também cuida do lar.
Mas ela também trabalha, planeja, negocia, produz, vende, investe e serve.
A Escritura diz claramente:
“Examina um campo e compra-o.” (Provérbios 31,16)
“Faz roupas e vende.” (Provérbios 31,24)
“Cinge os lombos de força.” (Provérbios 31,17)
Ela arregaça as mangas.
Ela não espera sentada.
Ela constrói.
Seu valor não está apenas no que protege dentro de casa,
mas também no que edifica no mundo, com dignidade, caráter e temor a Deus.
A mulher virtuosa:
honra o lar, mas não enterra seus talentos;
ama a família, mas não anula sua missão;
caminha com o marido, não atrás dele.
Ela é coluna da casa e força na batalha da vida.
“Força e dignidade são os seus vestidos.” (Provérbios 31,25)

Nem toda mulher foi chamada à maternidade
Outro ponto ignorado por muitos desses discursos é que Deus distribui dons e vocações de forma diferente.
A Bíblia mostra claramente que nem toda mulher foi chamada para ser esposa ou mãe — e isso nunca diminuiu sua dignidade ou valor diante de Deus.
Vemos mulheres que:
seguiram Jesus,
sustentaram o ministério,
serviram ao Reino,
viveram consagradas,
sem que haja qualquer registro de filhos ou casamento.
Alguns exemplos:
Maria Madalena, discípula fiel e primeira testemunha da Ressurreição;
Marta e Maria, amigas íntimas de Jesus;
Joana e Susana, que ajudavam o ministério com seus bens (Lc 8,1–3);
Ana, a profetisa, viúva que permaneceu no Templo em oração e serviço.
Nenhuma delas é apresentada como incompleta.

O verdadeiro valor da mulher
A mulher não é definida:
pela maternidade,
nem pelo estado civil,
nem apenas pelo espaço doméstico ou profissional.
Ela é definida por:
sua fidelidade,
seu amor,
sua entrega a Deus
e o uso responsável dos dons que recebeu.
Reduzir a mulher a um único papel é empobrecer a própria obra do Criador.
Deus chama algumas ao lar, outras ao trabalho visível, outras à consagração, outras à maternidade — muitas a mais de uma dessas missões.
Todas com igual dignidade.

jueves, 1 de enero de 2026

Então é 2026

O ano acaba… e deveria terminar em silêncio,
mas termina em excesso.
Passamos o último dia correndo.
Comendo além do necessário.
Bebendo para “celebrar”.
Rindo por obrigação.
Esticamos o corpo e a alma até o limite,
procuramos o melhor ângulo para a foto,
forçamos uma alegria que muitas vezes não existe,
transformando a virada em uma disputa silenciosa
sobre quem escolheu o melhor lugar para estar.
Chamamos isso de festa.
Mas, muitas vezes, é apenas fuga do vazio.
Uma anestesia coletiva.
Então chega o primeiro dia do ano.
E ele chega cobrando.
O corpo acorda pesado.
A mente, turva.
O coração, estranho —
como se algo importante tivesse sido esquecido
no meio do barulho.
Não é preguiça.
É exaustão espiritual.
Queríamos começar o ano com força,
mas começamos deitados.
Sem energia.
Sem direção.
Rolando o feed para ver quem fez a melhor foto.
Adiando decisões.
Empurrando propósitos para “segunda-feira”.
É o retrato de uma cultura
que confunde alegria com estímulo constante
e descanso com inércia.
Talvez o erro não esteja no primeiro dia…
mas em como terminamos o último.
Antigamente, o Ano Novo começava com vigília.
Com recolhimento.
Com oração.
Havia fogo, mas era controlado,
não explosão.
Havia respeito pelo tempo,
pelo corpo,
pelo espírito.
O início era tratado como algo sagrado,
não como ressaca.
E se este cansaço for um aviso?
Um chamado para começar diferente:
menos promessa, mais presença
menos euforia, mais sentido
menos excesso, mais ordem
O primeiro dia não precisa ser produtivo.
Mas precisa ser consciente.
Mesmo cansada, você pode:
— silenciar
— arrumar um pequeno espaço
— escrever uma intenção real
— agradecer por ter chegado até aqui
Recomeçar não exige energia.
Exige verdade.
E talvez o verdadeiro Ano Novo
não seja o dia 1º,
mas o dia em que você decide
não repetir o mesmo ciclo —
nem por hábito,
nem por medo,
nem por convenção.

viernes, 26 de diciembre de 2025

Poesia

Ela contou: um, dois, três.
Contou de novo: um, dois, três.

Mas o coração não acalmou.

Por que havia dias assim?

A mente, um milhão de pensamentos.
Não conseguia parar.
Não conseguia falar.

O que está para acontecer?

Fez uma pequena oração —
pequena
como seu corpo frágil
diante de um mundo inteiro a lhe olhar.

Ergueu os olhos ao céu:
estrelas e nuvens
que não se tocavam.

Vejam só.

Um pássaro negro
vagueia no próprio escuro.

E ela já não sabia mais
o que fazer.

domingo, 21 de diciembre de 2025

Natal

O Natal se aproxima.
É tempo de esperança.
É tempo de recordar que Jesus veio para nos dar vida nova.
A simbologia do Natal não pode estar acima do seu verdadeiro significado.
Não se trata apenas de encontros familiares, confraternizações, comidas ou bebidas.
Tudo isso pode ser bom — mas não é o essencial.
O Natal é algo maior.
É o mistério do Deus que se faz próximo, que entra na história humana, que aceita nascer pequeno para nos salvar por inteiro.
Deus enviou Seu Filho ao mundo não como um rei poderoso aos olhos humanos,
mas como uma criança frágil, para nos ensinar que o amor verdadeiro é humilde, silencioso e transformador.
Jesus chegou.
E, desde então, não estamos mais sozinhos.
Onde há dor, Ele é consolo.
Onde há medo, Ele é esperança.
Onde há queda, Ele é recomeço.
O Natal é isso:
Deus conosco.
Vida nova.
Salvação que nasce em silêncio — mas muda tudo.
Que possamos perceber os pequenos detalhes de Deus.
A beleza que se revela nas coisas simples, silenciosas e escondidas.
Que este Natal seja tempo de acolhida verdadeira.
Que não nos esqueçamos de quem tem fome,
das crianças que ainda dormem em uma “manjedoura” feita de abandono, frio e esquecimento.
Que, ao nos sentarmos à mesa para comer,
não nos esqueçamos de agradecer a Deus pelo alimento,
e de lembrar daqueles que hoje não têm o que colocar no prato.
Que, ao abraçarmos quem está ao nosso lado,
não nos esqueçamos de quem não tem um abraço,
de quem vive na solidão, na dor ou no silêncio invisível.
Que, ao presentearmos o próximo,
não nos esqueçamos dos que caminham descalços pela vida,
dos que carecem não apenas de coisas, mas de dignidade, cuidado e amor.
Que o Menino Deus, nascido na simplicidade,
nos ensine a olhar com mais compaixão,
a viver com mais gratidão
e a amar como Ele nos amou.
Que este Natal não seja apenas uma data,
mas um renascimento do coração.